sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O BRUXO





O BRUXO

       
Na primeira metade deste século, as populações sertanejas, embora religiosas, católicas em sua maioria, eram bastante supersticiosas, apesar de escutarem, frequentemente, os veementes sermões proferidos pelos vigários, que condenavam as crendices populares, as quais, segundo propalavam, causavam apenas males e nenhum benefício.
Eu mesmo estou de pleno acordo com a assertiva de um pensador francês de que as religiões, as crenças e outras manifestações místicas praticadas pela humanidade, nada mais são do que filhas do medo ao desconhecido, da ignorância e da superstição.
Não havia ainda, naqueles tempos idos, representações de seitas afro-brasileiras no sertão nordestino, onde não se cultiva essa erva daninha, porque os filhos da África foram fixados pelos seus donos longe dali, nas áreas litorâneas ou a elas próximas, por força das culturas do café e da cana-de-açúcar, que exigiam muita mão-de-obra.
A cultura negra,  portanto, não se achava presente nas regiões do agreste, onde os brancos e os mestiços predominavam.
Assim, aquelas populações desconheciam os rituais da magia-negra (bruxaria ou macumba), cuja prática provinha de raízes africanas. Contudo, muita gente tinha conhecimento da existência de bruxos, também conhecidos como macumbeiros, embora nunca os houvesse visto. E tinham notícias de que eles possuíam poderes sobrenaturais e praticavam malefícios aos seus semelhantes, podendo até mesmo mata-los com sua diabólica arte, mediante remuneração previamente estipulada.
Um desses “filhos do Diabo”, como se dizia no sertão, surgiu, certa feita, das sombras da noite e chegou ao nosso povoado. Comprou um pequeno sítio cerca de um quilômetro de distância, e montou, ali, o seu misterioso negócio. Numa tabuleta pregada num poste de madeira fincado em frente da casa modesta, lia-se:
TENDA ESPÍRITA
Segundo era voz corrente, o indivíduo era de meia – idade, alto e magro; os olhos vermelhos como brasa e a pele escura. O homem era quase negro e mantinha hábitos reservados e taciturnos.
Fumava um cachimbo que exalava cheiro esquisito, e não fazia amigos. Morava sozinho, tendo por companhia apenas um cachorro e um gato muito pretos.
Os habitantes da comunidade, cerca de mil almas tementes a Deus, passaram a desviar as preocupações relativas aos seus problemas cotidianos para dar atenção a tudo o que se passava em torno daquela personagem, a quem uns mais entendidos chamavam de “PASTOR DOS ORIXÁS”. Como rajadas de vento, iam surgindo histórias inverossímeis e, até mesmo, lendas começavam a germinar como as gramíneas. O homem passou a ser o foco principal de interesse de todos, principalmente das crianças e mulheres que, pouco a pouco, começavam a visita-lo, por simples curiosidade.
À noite, sob a luz pálida das estrelas, as pessoas colocavam bancos e cadeiras às portas de suas casas para trocarem idéias e opiniões sobre a novidade, e já se dizia que o desconhecido seria capaz de fazer curas miraculosas, fosse no corpo ou na alma. Essa súbita fama foi responsável pela decisão de algumas pessoas o procurarem para consultas, e, à medida que espalhava-se crescia a afluência de pessoas que julgavam necessitar dos seus conhecimentos e remédios. Dia a dia o seu prestígio subia no meio daquela gente humilde, como a temperatura registrada por termômetro em doente com febre.
Nessa mesma ocasião, meu avô era noivo de uma filha de outro fazendeiro, seu vizinho e compadre. A data do casamento já estava marcada. A moça era prendada, bonita, elegante, e quase rica. E estava loucamente apaixonada.
Contudo, por motivos que a razão desconhece, meu avô conheceu outra moça que morava num município distante; apaixonou-se à primeira vista.
Rompeu o noivado e casou-se, sem demora, com a nova eleita.
Nos primeiros dias da lua de mel na fazenda, numa brilhante e alegre manhã de sol, a jovem esposa abriu a porta da frente da casa e deparou-se, no alpendre, com um sapo-cururu, enorme; tinha a boca toda costurada estava enfeitado com fitas coloridas e muitos alfinetes espetados no corpo.
O sapo lançou à minha futura avó um olhar satânico. Ela estremeceu com a visão, sentiu tontura e, instintivamente, fechou a porta, antes que o sapo pulasse pra dentro da residência, e gritou por socorro.
Meu avô ainda dormia, por ter se deitado tarde, cansado das tarefas cumpridas no dia.  Acordado em sobressalto pelo grito de pavor da esposa, apanhou o facão que sempre o acompanhava e partiu em auxílio de sua amada. Minha avó estava visivelmente assustada, trêmula; a voz recolhida na garganta. Conseguiu, apenas, apontar com o dedo indicador a direção da porta que ele abriu e divisou o sapo estranho. Pressentiu, em fração de segundo, que se tratava de macumba e atribuiu a autoria à sua ex-noiva, cuja família tinha fama de vingativa.
Embora fosse homem valente, destemido, capaz de enfrentar touro bravio, atemorizou-se com aquela inusitada situação. Não sabia o que fazer.
De imediato, lembrou-se de ter ouvido falar que um bruxo estava residindo na região, e resolveu consulta-lo, de imediato. Montou no seu cavalo e com a rapidez de um cavaleiro das cruzadas foi ao encontro do homem, na esperança de obter uma solução para o problema.

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Chegando à residência do macumbeiro, insistiu numa urgente audiência. Após relatar o motivo da visita, apelou por um conselho ou orientação. Embora ocultasse o pensamento, meu avô, achava que o “filho das trevas” tinha sido responsável pela macumba que o sapo era portador, disse: eu posso resolver o problema, mas para isso, necessito de uma remuneração, por exigência das minhas necessidades.
Desesperado, meu avô satisfez o pagamento fixado. O bruxo sentenciou: se você matar o sapo sua mulher morrerá em pouco tempo. Agarre-o, com cuidado, sem feri-lo e jogue-o nas águas de um açude ou de um rio.
Em obediência ao conselho recebido, meu avô atirou o sapo em um pequeno açude situado na fazenda e não muito longe de sua casa. Após essa providência, a paz voltou ao seio do casal.
Entretanto, ainda não estava escrito o último capítulo da história.
Passados alguns dias, o mesmo sapo – ou seria outro? –  reapareceu, nas mesmas condições já descritas. Novamente meu avô recorreu ao feiticeiro e ofereceu-lhe um cavalo como pagamento pelos serviços.
Após uma prolongada reflexão, o homem deu, finalmente, uma sábia e definitiva solução.
Meu avô deveria capturar o sapo e jogá-lo em algum açude profundo e distante ou, de preferência, na correnteza de um rio. Escolhida esta última hipótese, o sapo depositário do feitiço desapareceu para sempre, e a tranquilidade voltou à alma da minha avó.
A fama que o feiticeiro granjeou, em pouco tempo, junto àquela comunidade, chegou ao conhecimento do zeloso padre da paróquia do povoado, o qual estava acostumado a proteger os seus filhotes.
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Rapidamente o curandeiro, como ele próprio se denominava, adquiriu poderosos inimigos: o padre, as beatas e outros religiosos fanáticos.
O estranho que passou a ser o motivo central dos próximos sermões do padre, que chegou ao cúmulo de organizar uma procissão para combater o inimigo.
No interior da casa foram dispostas imagens de divindades africanas, designadas “Orixás”, que foram confundidas pelo padre e outros beatos como imagens do Demo.
Uma comissão de devotos, com o padre à frente, solicitou ao Delegado que expulsasse “aquele bruxo”, ou que o prendesse, caso ele se recusasse a ir embora. O Delegado alegou que nada podia fazer por falta de amparo legal.
Decorrido algum tempo, que não sei precisar, espalhou-se como um estopim a surpreendente notícia de que o “feiticeiro” e os seus dois amigos – o cachorro e o gato pretos– haviam sido misteriosamente assassinados, e a casa incendiada, enterrando, sob as cinzas de seus escombros, o mistério da origem e do destino daquele homem.
À boca pequena dizia-se que os assassinos teriam sido os religiosos fanáticos, instigados pelo padre.
Mas os ventos uivantes da dúvida ou da calúnia sopraram para longe os rumores dessas insinuações sobre o espantoso crime, e, finalmente, tudo foi esquecido com o passar dos anos.  



                            Edson Valadares


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