O BRUXO
Na primeira metade deste século, as
populações sertanejas, embora religiosas, católicas em sua maioria, eram
bastante supersticiosas, apesar de escutarem, frequentemente, os veementes
sermões proferidos pelos vigários, que condenavam as crendices populares, as
quais, segundo propalavam, causavam apenas males e nenhum benefício.
Eu mesmo estou de pleno acordo com a
assertiva de um pensador francês de que as religiões, as crenças e outras
manifestações místicas praticadas pela humanidade, nada mais são do que filhas
do medo ao desconhecido, da ignorância e da superstição.
Não havia ainda, naqueles tempos idos,
representações de seitas afro-brasileiras no sertão nordestino, onde não se
cultiva essa erva daninha, porque os filhos da África foram fixados pelos seus
donos longe dali, nas áreas litorâneas ou a elas próximas, por força das
culturas do café e da cana-de-açúcar, que exigiam muita mão-de-obra.
A cultura negra, portanto, não se achava presente nas regiões
do agreste, onde os brancos e os mestiços predominavam.
Assim, aquelas populações desconheciam os
rituais da magia-negra (bruxaria ou macumba), cuja prática provinha de raízes
africanas. Contudo, muita gente tinha conhecimento da existência de bruxos,
também conhecidos como macumbeiros, embora nunca os houvesse visto. E tinham
notícias de que eles possuíam poderes sobrenaturais e praticavam malefícios aos
seus semelhantes, podendo até mesmo mata-los com sua diabólica arte, mediante
remuneração previamente estipulada.
Um desses “filhos do Diabo”, como se dizia
no sertão, surgiu, certa feita, das sombras da noite e chegou ao nosso povoado.
Comprou um pequeno sítio cerca de um quilômetro de distância, e montou, ali, o
seu misterioso negócio. Numa tabuleta pregada num poste de madeira fincado em
frente da casa modesta, lia-se:
TENDA ESPÍRITA
Segundo era voz corrente, o indivíduo era
de meia – idade, alto e magro; os olhos vermelhos como brasa e a pele escura. O
homem era quase negro e mantinha hábitos reservados e taciturnos.
Fumava um cachimbo que exalava cheiro
esquisito, e não fazia amigos. Morava sozinho, tendo por companhia apenas um
cachorro e um gato muito pretos.
Os habitantes da comunidade, cerca de mil
almas tementes a Deus, passaram a desviar as preocupações relativas aos seus
problemas cotidianos para dar atenção a tudo o que se passava em torno daquela
personagem, a quem uns mais entendidos chamavam de “PASTOR DOS ORIXÁS”. Como
rajadas de vento, iam surgindo histórias inverossímeis e, até mesmo, lendas
começavam a germinar como as gramíneas. O homem passou a ser o foco principal
de interesse de todos, principalmente das crianças e mulheres que, pouco a
pouco, começavam a visita-lo, por simples curiosidade.
À noite, sob a luz pálida das estrelas, as
pessoas colocavam bancos e cadeiras às portas de suas casas para trocarem
idéias e opiniões sobre a novidade, e já se dizia que o desconhecido seria
capaz de fazer curas miraculosas, fosse no corpo ou na alma. Essa súbita fama
foi responsável pela decisão de algumas pessoas o procurarem para consultas, e,
à medida que espalhava-se crescia a afluência de pessoas que julgavam
necessitar dos seus conhecimentos e remédios. Dia a dia o seu prestígio subia
no meio daquela gente humilde, como a temperatura registrada por termômetro em
doente com febre.
Nessa mesma ocasião, meu avô era noivo de
uma filha de outro fazendeiro, seu vizinho e compadre. A data do casamento já
estava marcada. A moça era prendada, bonita, elegante, e quase rica. E estava
loucamente apaixonada.
Contudo, por motivos que a razão
desconhece, meu avô conheceu outra moça que morava num município distante;
apaixonou-se à primeira vista.
Rompeu o noivado e casou-se, sem demora,
com a nova eleita.
Nos primeiros dias da lua de mel na
fazenda, numa brilhante e alegre manhã de sol, a jovem esposa abriu a porta da
frente da casa e deparou-se, no alpendre, com um sapo-cururu, enorme; tinha a
boca toda costurada estava enfeitado com fitas coloridas e muitos alfinetes
espetados no corpo.
O sapo lançou à minha futura avó um olhar
satânico. Ela estremeceu com a visão, sentiu tontura e, instintivamente, fechou
a porta, antes que o sapo pulasse pra dentro da residência, e gritou por
socorro.
Meu avô ainda dormia, por ter se deitado
tarde, cansado das tarefas cumpridas no dia.
Acordado em sobressalto pelo grito de pavor da esposa, apanhou o facão
que sempre o acompanhava e partiu em auxílio de sua amada. Minha avó estava
visivelmente assustada, trêmula; a voz recolhida na garganta. Conseguiu,
apenas, apontar com o dedo indicador a direção da porta que ele abriu e divisou
o sapo estranho. Pressentiu, em fração de segundo, que se tratava de macumba e
atribuiu a autoria à sua ex-noiva, cuja família tinha fama de vingativa.
Embora fosse homem valente, destemido,
capaz de enfrentar touro bravio, atemorizou-se com aquela inusitada situação.
Não sabia o que fazer.
De imediato, lembrou-se de ter ouvido
falar que um bruxo estava residindo na região, e resolveu consulta-lo, de
imediato. Montou no seu cavalo e com a rapidez de um cavaleiro das cruzadas foi
ao encontro do homem, na esperança de obter uma solução para o problema.
39
Chegando à residência do macumbeiro,
insistiu numa urgente audiência. Após relatar o motivo da visita, apelou por um
conselho ou orientação. Embora ocultasse o pensamento, meu avô, achava que o
“filho das trevas” tinha sido responsável pela macumba que o sapo era portador,
disse: eu posso resolver o problema, mas para isso, necessito de uma
remuneração, por exigência das minhas necessidades.
Desesperado, meu avô satisfez o pagamento
fixado. O bruxo sentenciou: se você matar o sapo sua mulher morrerá em pouco
tempo. Agarre-o, com cuidado, sem feri-lo e jogue-o nas águas de um açude ou de
um rio.
Em obediência ao conselho recebido, meu
avô atirou o sapo em um pequeno açude situado na fazenda e não muito longe de
sua casa. Após essa providência, a paz voltou ao seio do casal.
Entretanto, ainda não estava escrito o
último capítulo da história.
Passados alguns dias, o mesmo sapo – ou
seria outro? – reapareceu, nas mesmas
condições já descritas. Novamente meu avô recorreu ao feiticeiro e ofereceu-lhe
um cavalo como pagamento pelos serviços.
Após uma prolongada reflexão, o homem deu,
finalmente, uma sábia e definitiva solução.
Meu avô deveria capturar o sapo e jogá-lo
em algum açude profundo e distante ou, de preferência, na correnteza de um rio.
Escolhida esta última hipótese, o sapo depositário do feitiço desapareceu para
sempre, e a tranquilidade voltou à alma da minha avó.
A fama que o feiticeiro granjeou, em pouco
tempo, junto àquela comunidade, chegou ao conhecimento do zeloso padre da
paróquia do povoado, o qual estava acostumado a proteger os seus filhotes.
40
Rapidamente o curandeiro, como ele próprio
se denominava, adquiriu poderosos inimigos: o padre, as beatas e outros religiosos
fanáticos.
O estranho que passou a ser o motivo
central dos próximos sermões do padre, que chegou ao cúmulo de organizar uma
procissão para combater o inimigo.
No interior da casa foram dispostas
imagens de divindades africanas, designadas “Orixás”, que foram confundidas
pelo padre e outros beatos como imagens do Demo.
Uma comissão de devotos, com o padre à
frente, solicitou ao Delegado que expulsasse “aquele bruxo”, ou que o
prendesse, caso ele se recusasse a ir embora. O Delegado alegou que nada podia
fazer por falta de amparo legal.
Decorrido algum tempo, que não sei
precisar, espalhou-se como um estopim a surpreendente notícia de que o
“feiticeiro” e os seus dois amigos – o cachorro e o gato pretos– haviam sido
misteriosamente assassinados, e a casa incendiada, enterrando, sob as cinzas de
seus escombros, o mistério da origem e do destino daquele homem.
À boca pequena dizia-se que os assassinos
teriam sido os religiosos fanáticos, instigados pelo padre.
Mas os ventos uivantes da dúvida ou da
calúnia sopraram para longe os rumores dessas insinuações sobre o espantoso
crime, e, finalmente, tudo foi esquecido com o passar dos anos.
Edson Valadares
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