ASSASSINATO no QUARTEL
Este conto aconteceu, realmente, nos idos da Segunda Guerra
Mundial, em Aracaju, capital do estado de Sergipe.
Após o torpedeamento de vários navios brasileiros, na
costa de Sergipe, praticado por submarinos nazistas, e de grande repercussão na
época, chegou a Aracaju uma bateria de costa vinda do Rio Grande do Sul,
comandada por um capitão. Esse capitão, como os seus militares gaúchos, era um
homem alto e de forte compleição. A sua pele, branca como neve; os cabelos,
pretos e volumosos.
Os gaúchos se destacavam dos nativos pela sua
estrutura física, sotaque próprio, e outros predicados.
Era gente orgulhosa e se julgava raça superior aos
mulatos que eram a maioria no Nordeste.
Logo, logo se instalou forte antagonismo entre a tropa
de gaúchos e a comunidade local.
Numa certa manhã, o tumulto percorreu a cidade que, na
época, contava com 50.000 habitantes.
A notícia pavorosa espalhou-se rápida pela cidade como
praga de gafanhotos.
Sabia-se que os gaúchos, tidos como homens valentes
dos pampas, provocavam frequentes brigas com os nativos, principalmente nos
bares, onde costumavam se embriagar.
O tumulto antes referido ocorreu porque um soldado do Rio Grande do Sul foi encontrado morto, degolado,
num bairro do subúrbio.
O crime foi atribuído, sem provas, a soldados da
polícia sergipana, pois eram frequentes os atritos entre componentes dessas
duas forças militares.
Alguns dias depois desse crime, mais outro militar
gaúcho foi assassinado.
E os assassinatos aos loiros e elegantes soldados
gaúchos se sucediam.
Se a memória não me falha, já se contavam dez
cadáveres de gaúchos que vieram à costa nordestina, com seus canhões, para a
defesa contra os perigosos submarinos alemães.
Entretanto, morriam estupidamente, sem glória,
assassinados pelos seus irmãos nordestinos.
Agora, feito esse prólogo, vamos tratar da história do
capitão, comandante da companhia de “estrangeiros”.
Não me lembro do seu nome.
Esse oficial era excessivamente pilhérico, brincalhão,
alegre como uma criança. Um tipo especial, pois, naquela época, os oficias do
exercito eram de natureza reservada, homens sérios, sisudos, cuja aparência e
elegância no vestir impunham respeito e até admiração, tanto aos seus
subordinados como à população civil.
No quartel onde os gaúchos viviam, havia um bonito
salão onde os oficiais tinham os seus cabelos aparados e o rosto escanhoado por
soldados-barbeiros.
Um desses profissionais militares, um sujeito menor de
trinta anos, mulato, forte, e de baixa estatura, cumpria suas obrigações de embelezar
a tropa gaúcha. Limitava-se a bater continência aos superiores hierárquicos,
porém mantinha-se mudo e desconfiado como um índio.
Era ele o “barbeiro” preferido do capitão, sabe-se lá
por quê.
O oficial costumava jogar pilhérias aos ouvidos do
soldado, que se mantinha calado. Essas pilhérias, sempre grosseiras e
desrespeitosas à mentalidade provinciana, foram se acumulando no espírito do
subalterno, como a água se acumula nos lagos após a chuva.
E numa tarde em que o Diabo provavelmente visitava o
quartel, o capitão sentou-se na larga e confortável cadeira de barbeiro, e, aos
berros e palavrões escabrosos, exigia a presença do soldado.
O cabelo foi cuidadosamente aparado no estilo militar
preferido pelo capitão. O rosto do homem foi ensaboado e o barbeiro iniciou o
escanhoar.
E o oficial continuava os seus gracejos pornográficos,
provocativos, humilhantes.
Até que, num relâmpago de tempo, o Diabo induziu o
soldado a cortar, com a afiada navalha, a garganta do Cezar gaúcho.
A notícia incendiou a população de Aracaju e as
estações de rádio noticiavam o acontecimento sem interrupção, a voz fúnebre dos
locutores penetrava nos lares.
À noite, eu e
alguns colegas fomos ao quartel ver o cadáver do capitão e testemunhar o
incrível crime. O corpo pálido estava dentro de um caixão sobre um estrado de
madeira, coberto de flores já murchas. Algumas mulheres piedosas choravam.
O corpo foi levado de avião para o Rio Grande do Sul.
O pequeno corpo do
exército gaúcho regressou ao seu estado sem o seu comandante e mais dez
companheiros, enterrados no cemitério da cidade.
O soldado assassino foi preso, julgado, e condenado a
trinta anos de prisão.
E eu, ainda hoje, embora já decorrido mais de meio
século, guardo na memória aquelas cenas de crime pavoroso. Tenho sempre a
impressão de que, agora mesmo, estou vendo o cadáver do capitão que foi
assassinado pela sua mania de pilheriar com pessoa inferior e estranha!
Salvador, 15/11/2002.
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