quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ASSASSINATO no QUARTEL




ASSASSINATO no QUARTEL



Este conto aconteceu, realmente, nos idos da Segunda Guerra Mundial, em Aracaju, capital do estado de Sergipe.
Após o torpedeamento de vários navios brasileiros, na costa de Sergipe, praticado por submarinos nazistas, e de grande repercussão na época, chegou a Aracaju uma bateria de costa vinda do Rio Grande do Sul, comandada por um capitão. Esse capitão, como os seus militares gaúchos, era um homem alto e de forte compleição. A sua pele, branca como neve; os cabelos, pretos e volumosos.
Os gaúchos se destacavam dos nativos pela sua estrutura física, sotaque próprio, e outros predicados.
Era gente orgulhosa e se julgava raça superior aos mulatos que eram a maioria no Nordeste.
Logo, logo se instalou forte antagonismo entre a tropa de gaúchos e a comunidade local.
Numa certa manhã, o tumulto percorreu a cidade que, na época, contava com 50.000 habitantes.
A notícia pavorosa espalhou-se rápida pela cidade como praga de gafanhotos.
Sabia-se que os gaúchos, tidos como homens valentes dos pampas, provocavam frequentes brigas com os nativos, principalmente nos bares, onde costumavam se embriagar.
O tumulto antes referido ocorreu porque um soldado do Rio Grande do Sul foi encontrado morto, degolado, num bairro do subúrbio.
O crime foi atribuído, sem provas, a soldados da polícia sergipana, pois eram frequentes os atritos entre componentes dessas duas forças militares.
Alguns dias depois desse crime, mais outro militar gaúcho foi assassinado.
E os assassinatos aos loiros e elegantes soldados gaúchos se sucediam.
Se a memória não me falha, já se contavam dez cadáveres de gaúchos que vieram à costa nordestina, com seus canhões, para a defesa contra os perigosos submarinos alemães.
Entretanto, morriam estupidamente, sem glória, assassinados pelos seus irmãos nordestinos.
Agora, feito esse prólogo, vamos tratar da história do capitão, comandante da companhia de “estrangeiros”.
Não me lembro do seu nome.
Esse oficial era excessivamente pilhérico, brincalhão, alegre como uma criança. Um tipo especial, pois, naquela época, os oficias do exercito eram de natureza reservada, homens sérios, sisudos, cuja aparência e elegância no vestir impunham respeito e até admiração, tanto aos seus subordinados como à população civil.
No quartel onde os gaúchos viviam, havia um bonito salão onde os oficiais tinham os seus cabelos aparados e o rosto escanhoado por soldados-barbeiros.
Um desses profissionais militares, um sujeito menor de trinta anos, mulato, forte, e de baixa estatura, cumpria suas obrigações de embelezar a tropa gaúcha. Limitava-se a bater continência aos superiores hierárquicos, porém mantinha-se mudo e desconfiado como um índio.
Era ele o “barbeiro” preferido do capitão, sabe-se lá por quê.
O oficial costumava jogar pilhérias aos ouvidos do soldado, que se mantinha calado. Essas pilhérias, sempre grosseiras e desrespeitosas à mentalidade provinciana, foram se acumulando no espírito do subalterno, como a água se acumula nos lagos após a chuva.
E numa tarde em que o Diabo provavelmente visitava o quartel, o capitão sentou-se na larga e confortável cadeira de barbeiro, e, aos berros e palavrões escabrosos, exigia a presença do soldado.
O cabelo foi cuidadosamente aparado no estilo militar preferido pelo capitão. O rosto do homem foi ensaboado e o barbeiro iniciou o escanhoar.
E o oficial continuava os seus gracejos pornográficos, provocativos, humilhantes.
Até que, num relâmpago de tempo, o Diabo induziu o soldado a cortar, com a afiada navalha, a garganta do Cezar gaúcho.
A notícia incendiou a população de Aracaju e as estações de rádio noticiavam o acontecimento sem interrupção, a voz fúnebre dos locutores penetrava nos lares.
 À noite, eu e alguns colegas fomos ao quartel ver o cadáver do capitão e testemunhar o incrível crime. O corpo pálido estava dentro de um caixão sobre um estrado de madeira, coberto de flores já murchas. Algumas mulheres piedosas choravam.
O corpo foi levado de avião para o Rio Grande do Sul.
O pequeno corpo do exército gaúcho regressou ao seu estado sem o seu comandante e mais dez companheiros, enterrados no cemitério da cidade.
O soldado assassino foi preso, julgado, e condenado a trinta anos de prisão.
E eu, ainda hoje, embora já decorrido mais de meio século, guardo na memória aquelas cenas de crime pavoroso. Tenho sempre a impressão de que, agora mesmo, estou vendo o cadáver do capitão que foi assassinado pela sua mania de pilheriar com pessoa inferior e estranha!


Salvador, 15/11/2002.

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